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Eliminar a desigualdade é ?uma luta crucial?, afirma Sérgio Abranches

RIO – No livro a ?A Era do Imprevisto? (Companhia das Letras), o sociólogo e cientista político Sérgio Abranches descreve como a sociedade vive hoje um interregno, à espera do novo modelo que emergirá das rápidas transformações tecnológicas, climáticas e econômicas em curso.

RESENHA: Ensaio ?A Era do imprevisto? busca lógica por trás de crise multidisciplinar

Seu ensaio aborda uma enorme variedade de aspectos da transição. Mas quais seriam os aspectos principais desse período?

Há pelo menos três. Na economia, há a polaridade entre austeridade e um padrão de gasto público que não tem mais suporte fiscal, que estreita a capacidade do Estado e a rede de proteção social, gerando insatisfação e desigualdade.

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A digitalização gera mudanças profundas de comportamentos e coloca em xeque questões da nossa cultura, como a privacidade.

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Na política, a digitalização cria maior consciência da falta de representatividade. O que me preocupa, e foi levantado pelo sociólogo Ulrich Beck, é que isso nos leve rumo a uma sociedade ?por conta própria?, de precariedade, de ?sua vida, seu risco?.

Dá para fazer um juízo de valor sobre essa transição?

Se vai ser positivo ou não depende de nossas escolhas.

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Meu ponto é: preste atenção a ela! O problema é que, no período de transição, em que ideias mortas alimentam o conservadorismo e as novas ainda não são sólidas, é difícil haver consenso.

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Quando não nos sentimos representados, não vemos que nossas ações pesam. Foi assim na Comuna de Paris, na Tomada da Bastilha. Quando a sociedade transborda os limites do modelo decadente, esses movimentos são formadores de futuro.

Seu livro é crítico ao que chama de cortes lineares do neoliberalismo.

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É isso que acontece hoje no Brasil?

Isso está acontecendo no mundo inteiro. Os ajustes são sempre feitos a partir da austeridade, alinhada à lógica do mercado financeiro. O capital foge e invade como quer. O problema é que parece não haver alternativas, uma vez que essa visão faz as coisas funcionarem, a despeito de produzir desigualdades, enquanto a esquerda não conseguiu se atualizar.

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Temos que fugir dessa ciranda. Precisamos de soluções à esquerda, que distribuam mais as riquezas, mas que sejam realistas com a exigência atual de ordem fiscal e que evitem uma fuga do capital móvel.

Por que há estreiteza fiscal?

À medida que a rede de proteção não é atualizada com as transformações sociais, ela começa a gerar muito privilégio.

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Além disso, a capacidade tributária do Estado diminui por causa da mobilidade do capital e da maior competição entre países.

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Há ainda o estreitamento da capacidade econômica das empresas tradicionais. O capitalismo está em crise.

Seu ensaio elege a diminuição da desigualdade como peça-chave do futuro.

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Por que essa questão parece não ser uma grande prioridade das políticas públicas?

A desigualdade está embutida na lógica da transição.

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A atuação da esquerda e a chave da democracia deveriam ser a luta contra ela (desigualdade). A centro-direita já percebeu que a desigualdade é um risco para ela e começa a tentar mitigá-la, enquanto a direita acha que a única forma de reduzi-la é eliminando, expulsando o desigual.

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Essa é uma luta crucial.

Como a austeridade se relaciona com a desigualdade?

Você pode respeitar os limites fiscais da ordem atual produzindo ou reduzindo a desigualdade.

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Quando opta-se por manter subsídios e cortar direitos sociais, opta-se pela desigualdade. Quando opta-se por diminuir os subsídios ao capital e reformular a rede de proteção social, opta-se por sua redução.

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No Brasil, sempre optou-se por manter subsídios.

A reforma fiscal por que passamos segue essa lógica?

Ela vai na mesma direção.

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Não vi nada na direção de retirar subsídios ao capital. Só vemos a CNI e a Fiesp pedindo mais privilégio, mais subsídio e menos regulação ambiental e social.

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E seu novo livro?

O Brasil vive uma microtransição dentro da macro, por isso nossa crise é mais penosa.

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Estou escrevendo sobre a crise do presidencialismo de coalizão. Nosso modelo está se esgotando mais rapidamente do que a democracia representativa no mundo, porque é mais oligárquico e desigual.

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Além disso, o Brasil não gera novas lideranças. A Espanha, por exemplo, está gerando, como Podemos e Ciudadanos.

Acerca das mudanças climáticas, seu livro fala com temer sobre a geoengenharia.

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A transição vai acabar com a intuição humana de sempre tentar controlar a natureza?

Uma pessoa otimista com o futuro da humanidade acredita que o ser humano se aperfeiçoará sempre.

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Se o ser humano no futuro vai perder a ilusão do controle? Certamente vai, mas não por causa desse suposto aperfeiçoamento, mas por causa de um processo de adaptação mesmo.

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O mundo fica menos controlável à medida que se esgota sua capacidade. O complexo de Prometeu, essa ideia de que somos capazes de controlar a natureza, vai sempre permanecer como instinto, mas, como possibilidade, vai ser cada vez menor.

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Isso porque o mundo ficará mais estreito e haverá respostas adversas mais rápidas da natureza. Agora, temos que usar nossa capacidade tecnológica, científica, para nos adaptarmos a esses limites.

Você está otimista com relação às mudanças climáticas?

Eu acho que avançamos devagar, mas avançamos.

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Desde Copenhague (conferência da ONU realizada na cidade em 2009, a COP 15) que eu acho que a gente tem avançado.

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Do ponto de vista político, de lá até Paris (COP 21, de 2015), as decisões foram pregressivamente mais favoráveis a fazer alguma coisa.

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Foi em Copenhague que países que se negavam a aceitar uma cooperação para enfrentar o problema, como EUA, China, Brasil e Índia, passaram a aceitar.

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Os cientistas e ambientalistas acham que isso é pouco, mas um politólogo acha que é bastante. Eu sei o quanto custa para um país mudar de posição. Estamos construindo um caminho político para enfrentar o problema. Vamos passar agora por um período de ceticismo por causa da reversão (política) nos EUA. O Trump está conseguido reverter até uma coisa que deu certo para todo mundo e não criou problemas para as empresas, que é a redução dos danos à camada de ozônio.

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Mas é um soluço da ordem conservadora.

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